Mão na Bola: A Regra Deve Considerar a Intenção?
Da "mão na bola" à "bola na mão": porque o futebol precisa de recuperar o critério da intenção
Durante décadas, a regra era simples, intuitiva e amplamente aceite: mão na bola era falta; bola na mão, não. O critério determinante era a intencionalidade. O árbitro avaliava se o jogador procurou deliberadamente a bola com o braço ou se o contacto foi meramente acidental. Essa distinção, baseada no bom senso e na leitura do lance, preservava a justiça natural do jogo e respeitava a sua dinâmica.
A alteração recente da interpretação — que passou a punir quase todo e qualquer contacto da bola com o braço, independentemente da intenção — introduziu uma rigidez excessiva e artificial no futebol. Hoje assistimos a penáltis assinalados porque a bola ressalta inesperadamente a curta distância ou porque um jogador, em movimento, não consegue “apagar” os braços do corpo. Isto não é realismo competitivo; é formalismo desproporcionado.
Os braços são instrumentos essenciais de equilíbrio. Ao correr, saltar, rodar o tronco ou disputar um lance aéreo, o corpo humano precisa deles para manter estabilidade e coordenação. Exigir que um atleta mantenha os braços colados ao corpo em todos os momentos é biomecanicamente irrealista e transforma movimentos naturais em potenciais infrações. O resultado é um futebol mais condicionado, mais imprevisível nas decisões e excessivamente dependente de interpretações microscópicas em câmara lenta.
Além disso, esta regra tem produzido consequências desportivas desajustadas: jogos decididos por lances fortuitos, campeonatos influenciados por toques involuntários e uma sensação crescente de injustiça entre adeptos e jogadores. O futebol não deve ser um jogo de punição automática, mas de avaliação contextual. A intenção e a vantagem obtida sempre foram critérios centrais no espírito da lei.
Regressar ao princípio original não significa tolerar o uso deliberado do braço; significa restaurar proporcionalidade. A regra deve distinguir claramente entre gesto voluntário e contacto inevitável. O futebol vive da fluidez, da espontaneidade e da coerência. Quando a norma ignora a realidade física do corpo humano e substitui o critério por automatismo, deixa de proteger o jogo e passa a distorcê-lo.
É tempo de devolver à regra da mão o equilíbrio perdido: menos formalismo, mais bom senso; menos punição automática, mais justiça desportiva.
Artigo de opinião por:

Diogo Sousa
deverá aparecer no ecrã principal do seu telemóvel como se fosse uma app. Passe a usar esse icon para abrir o site OndeBola.