Se a Câmara Vê, a Disciplina Tem de Agir
Se a câmara vê, a disciplina actua - lances polémicos não ficam impunes
O futebol moderno é o espetáculo mais filmado do planeta. Cada lance é captado por dezenas de câmaras, revisto em câmara lenta, ampliado até ao mais pequeno detalhe. Nada escapa ao escrutínio público — exceto, paradoxalmente, algumas das faltas mais graves.
Agressões fora do lance, cotoveladas disfarçadas, empurrões longe da bola, simulações deliberadas. Tudo isto acontece. Muitas vezes passa impune. Não porque não tenha existido, mas porque o árbitro não viu.
Isso é humano. O que já não é aceitável é fingir que a verdade desportiva termina no apito final.
Se as imagens mostram claramente uma agressão, a ausência de castigo não é defesa do jogo — é legitimação da impunidade. Se uma simulação influencia uma decisão e o vídeo o demonstra sem margem para dúvida, ignorar o facto é premiar o engano.
Mas quando o árbitro não vê, o sistema prefere também não ver.
Invoca-se então a pureza do momento, como se rever um lance dias depois fosse uma heresia. Não é. A disciplina no futebol sempre ultrapassou os 90 minutos. Existem castigos por acumulação de cartões, processos por declarações públicas, sanções por irregularidades administrativas. A regra de que “o jogo já acabou” aplica-se seletivamente — e quase sempre para proteger o erro não corrigido.
Num desporto que investe milhões em tecnologia, não usar essa tecnologia para proteger a verdade desportiva é uma contradição evidente.
A solução não é transformar cada contacto num processo disciplinar. É simples: revisão apenas de lances não observados pela equipa de arbitragem, prova inequívoca e sanção proporcional à gravidade — um, dois ou mais jogos de suspensão.
Justiça diferida não é vigilância permanente, é responsabilidade. Num futebol que se proclama moderno, transparente e rigoroso, não faz sentido ignorar o que a tecnologia revela com clareza. A justiça não tem de ser instantânea para ser justa; tem apenas de ser coerente. Se a câmara vê, a disciplina não pode fechar os olhos.
Artigo de opinião por:

Diogo Sousa
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