Evolução Interrompida: Como a FIFA e a UEFA Travaram as Divisões Europeias
Do regional ao continental: a evolução travada do futebol europeu.
O futebol chegou a Portugal no final do século XIX através de jovens aristocratas regressados de Inglaterra e de cidadãos britânicos radicados no país. O Club Internacional de Foot-ball (CIF), fundado originalmente em 1902, foi um dos grandes motores iniciais do desporto em Lisboa.
Logo de seguida, surgiram o Sport Lisboa e Benfica e o Sporting Clube de Portugal, fundados em 1904 e 1906, que estabeleceram rapidamente a base da paixão clubística na capital. Paralelamente, o Futebol Clube do Porto consolidou-se a Norte, impulsionando a rivalidade regional que viria a definir o panorama desportivo nacional.
Nas primeiras décadas do século XX, a inexistência de transportes rápidos e infraestruturas eficazes limitava as competições à escala local, dando origem aos campeonatos regionais. Uma viagem de comboio entre Lisboa e Porto demorava quase um dia inteiro, o que inviabilizava logisticamente uma prova regular de âmbito nacional.
A Associação de Futebol de Lisboa (AFL), criada em 1910, organizou as primeiras competições formais da capital. Ali mediam forças clubes emblemáticos como o S.L. Benfica, o Sporting C.P., o CIF, o Sport Club Império, o Sport Club de Campo d'Ourique e o Carcavelos Club.
A Norte, a Associação de Futebol do Porto foi fundada em 1912 e deu início ao seu próprio campeonato regional. A prova era disputada acesamente pelo FC Porto, Boavista FC, SC Salgueiros, Leixões SC e Académico FC.
O grande problema deste modelo era o isolamento, uma vez que os clubes jogavam apenas contra os vizinhos geográficos. Os campeões de cada distrito eram coroados sem nunca se defrontarem diretamente, gerando uma enorme assimetria competitiva. Para combater esta fragmentação, a União Portuguesa de Futebol criou o Campeonato de Portugal em 1922. Esta foi a primeira prova de cariz nacional. Contudo, funcionava estritamente como um torneio a eliminar, em moldes semelhantes à atual Taça de Portugal. A sua limitação era evidente: os participantes qualificavam-se unicamente através do desempenho nos campeonatos regionais.
Não existia uma liga de regularidade onde todos jogassem contra todos. Isto impedia o crescimento sustentado do ritmo e do nível médio das equipas. A falta de densidade competitiva interna cobrou o seu preço em moldes dramáticos na caminhada para o Campeonato do Mundo de 1934. Portugal defrontou a Espanha em Madrid, em março de 1934, de olhos postos na qualificação. O resultado final cifrou-se numa derrota humilhante por 0-9. O desastre expôs a fragilidade do modelo eliminatório nacional.
A consolidação da Linha Ferroviária do Norte permitiu finalmente pensar em soluções geográficas mais ambiciosas. A federação percebeu que, para evoluir, os clubes precisavam de jogar mais vezes entre si ao longo do ano. Como consequência direta, na época de 1934/35, nasceu a primeira competição experimental em formato de liga: o Campeonato da Liga da Primeira Divisão.
Apesar da criação da liga, o sistema ainda era fechado e altamente elitista. Não existia uma verdadeira pirâmide que permitisse a progressão de clubes de outras regiões.
Clubes emblemáticos fora do eixo central de Lisboa e Porto ficavam isolados. Clubes como o SC Braga no Minho ou o Vitória de Setúbal no Sul dominavam localmente, mas estavam bloqueados no acesso sustentado ao topo.
Foi necessário outro terramoto desportivo para forçar a modernização definitiva. Em abril de 1947, a Seleção Nacional voltou a averbar uma pesada derrota por 0-9 frente à Espanha, desta vez em pleno Estádio do Jamor. A resposta federativa foi estrutural e imediata. Acabou-se com o regime experimental e estabeleceu-se a Primeira e Segunda Divisão Nacional. Este novo modelo introduziu um sistema claro de promoções e descidas diretas por mérito desportivo. Aboliu-se de vez a dependência dos campeonatos regionais para o acesso ao escalão principal, abrindo as portas do futebol nacional a todo o país.
A passagem do plano regional para o plano nacional foi uma evolução lógica e orgânica para subir o nível do jogo. Seguindo esta exata linha de pensamento, o passo seguinte e natural seria a transição do plano nacional para o plano continental. Esta mudança unificaria o futebol europeu numa estrutura piramidal de ligas. Especialistas e defensores de uma reestruturação há muito sugerem que o modelo ideal passaria por divisões europeias fixas.
Uma Primeira Divisão Europeia poderia ser composta por um campeonato com os 20 melhores clubes da Europa a jogar num sistema de todos contra todos. Abaixo desta, funcionariam duas Segundas Divisões Europeias com 20 clubes cada uma, servindo de base de promoção e despromoção direta.
Contudo, a UEFA e a FIFA operam como reguladores e organizadores comerciais em simultâneo, opondo-se fortemente a este tipo de reestruturação. Ao longo dos anos, ambas as entidades combateram projetos de ligas unificadas recorrendo a ameaças de exclusão de atletas e sanções económicas aos clubes. As instituições tradicionais defendem publicamente o chamado modelo desportivo europeu. A UEFA justifica o bloqueio a estas divisões elitistas alegando a necessidade de solidariedade financeira.
Segundo o organismo, as receitas das atuais provas continentais devem ser distribuídas para financiar o futebol de formação e os clubes pequenos de países periféricos. Uma liga europeia isolada com os vinte maiores colossos destruiria essa redistribuição, sufocando as ligas locais. Por isso, as entidades preferem manter a Champions League estruturada como uma competição híbrida, que preserva o formato tradicional de eliminatórias. Esta resistência visa proteger os mercados televisivos locais e a autonomia das federações nacionais.
Desta forma, alguns especialistas defendem que o passo seguinte e a evolução do modelo competitivo que transformou os campeonatos regionais em ligas nacionais permanece condicionado pelas fronteiras da Europa, onde os grandes clubes continentais debatem a possibilidade de competir num ecossistema de liga unificada.
Ver artigo relacionado: A UEFA e a desigualdade no futebol europeu.
Artigo de opinião por:

Diogo Sousa
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